Em Atibaia, no interior de São Paulo, a Zilia produz cerca de 150 milhões de chips por ano. A fábrica trabalha principalmente com memórias RAM e Flash usadas em smartphones e notebooks.
A empresa atua no encapsulamento e no teste, etapas que vêm depois da fabricação dos circuitos em wafers de silício. Na unidade de Atibaia, os wafers chegam prontos da Ásia para serem cortados, conectados e testados.
A trajetória da Zilia começou em 1997, com a montagem de módulos de memória; em 2005, a empresa construiu a fábrica de Atibaia. A companhia também mantém uma unidade em Manaus, onde produz módulos de memória.
De acordo com a Associação Brasileira da Indústria de Semicondutores (Abisemi), a indústria brasileira atende aproximadamente 8% da demanda interna. A expansão da Zilia se insere em um debate sobre incentivos públicos, capacidade produtiva e o espaço que o país pode ocupar na cadeia global de chips.
Como funciona a produção de chips na fábrica da Zilia
Na unidade de Atibaia, os funcionários entram na sala limpa com macacão, touca, luvas e botas, depois de passar por uma câmara de ar que remove partículas. Até um lápis é proibido: o grafite pode contaminar um processo realizado em escala de nanômetros.
O encapsulamento exige precisão porque um erro ao conectar ou testar o componente pode inutilizá-lo. Segundo a descrição da operação, a linha funciona 24 horas por dia, sete dias por semana, e para por 12 horas no Natal.
A empresa empilha até 19 chips em um circuito, distribuídos por 16 camadas. A arquitetura Multi Chip Package permite concentrar mais memória em aparelhos mais finos; em Manaus, a fábrica da companhia produz cerca de 7 milhões de módulos de memória por ano.
O lugar do Brasil na cadeia global de semicondutores
A cadeia de semicondutores se divide em design, fabricação do wafer, encapsulamento e teste e montagem final. O design define os circuitos e as funções do chip; a fabricação constrói os circuitos sobre discos de silício, enquanto as etapas seguintes preparam e incorporam os componentes a produtos.
Em 2025, a indústria global faturou 791,7 bilhões de dólares, alta de 25,6% em relação ao ano anterior, segundo a Semiconductor Industry Association (SIA). Para 2026, a entidade revisou sua estimativa para 1,5 trilhão de dólares, crescimento impulsionado sobretudo pela infraestrutura de inteligência artificial.
De acordo com a Associação Brasileira da Indústria de Semicondutores (Abisemi), o setor nacional faturou cerca de 1 bilhão de dólares em 2024 e empregava diretamente 2.500 pessoas. O encapsulamento e o teste, conhecidos como backend, movimentam cerca de 60 bilhões de dólares no mundo; wafers respondem por quase 70% da receita, segundo a SIA e o Boston Consulting Group.
Da antiga indústria à mudança de controle da Zilia
O Brasil chegou a reunir 23 fabricantes nacionais e multinacionais no início dos anos 1990, incluindo Philips, Motorola, Siemens, NEC, Fairchild, Texas Instruments e National Semiconductor. A trajetória de uma fábrica da Philips no Recife ilustra as limitações daquele período: aberta em 1974 com capacidade igual à de uma unidade em Kaohsiung, Taiwan, ela não ampliou sua produção como a instalação taiwanesa.
Rogério Nunes, CEO da Zilia e presidente da Abisemi, atribui à reserva de mercado da Política Nacional de Informática a falta de competitividade do setor. Com a abertura comercial, entre 1989 e 1992, as fábricas estrangeiras deixaram o país.
A companhia que hoje é a Zilia tinha a marca Smart Brasil por quase duas décadas, ligada à controladora americana Smart Modular Technologies. Em 2023, após um período de retração do mercado global, a Penguin Solutions reduziu sua participação e abriu espaço para a chinesa Longsys, que até então desenvolvia produtos e terceirizava a manufatura; a unidade brasileira foi sua primeira fábrica.
Em 2024, a empresa anunciou 650 milhões de reais em investimentos, com a meta de se tornar fabricante global. As exportações passaram a representar de 6% a 7% do faturamento, e a companhia também mira encapsular componentes para terceiros, além de vender produtos com marca própria.
Incentivos públicos e os desafios para atrair investimentos
O Programa de Apoio ao Desenvolvimento Tecnológico da Indústria de Semicondutores (Padis) foi criado em 2007, mas a Zilia só conseguiu utilizá-lo em 2011, após a regulamentação. Nunes observou que o intervalo entre a criação do incentivo e sua aplicação pode ser relevante para decisões de investimento em um setor sujeito às condições do mercado.
A Lei nº 14.968, de setembro de 2024, criou o Brasil Semicon e estendeu os benefícios às exportações; a regulamentação saiu em julho de 2026. O Decreto nº 13.065 ampliou o Padis para atividades de design e transferência de tecnologia e prevê 7 bilhões de reais anuais em incentivos.
A Abisemi projeta 24,8 bilhões de reais em investimentos privados até 2035, enquanto o governo estima 186,6 bilhões de reais quando incluídos recursos públicos. Já o Redata prevê desoneração para equipamentos de data centers de inteligência artificial, mas Ronaldo Felix, sócio e diretor de operações da Saygo Group, avalia que a medida não garante encomendas a fornecedores nacionais se as compras forem de equipamentos importados.
A lei do Redata admite a coabilitação de fornecedores brasileiros e exige investimento em pesquisa e desenvolvimento equivalente a 2% do valor adquirido com o incentivo. A lista de equipamentos elegíveis ainda não existe, e a suspensão de impostos está condicionada ao calendário da reforma tributária, com prazo até 31 de dezembro de 2026.
Fabricação de wafers e a aposta em nichos de mercado
Rogério Nunes defende a concentração brasileira no encapsulamento e no teste, em vez de uma fábrica de wafers. Na avaliação dele, uma nova unidade dificilmente encontraria compradores, já que as grandes fabricantes trabalham com fornecedores tradicionais.
Adão Villaverde, professor da Escola Politécnica da PUCRS e ex-presidente do SemiCon-LAC, considera que o país não deve excluir a fabricação do horizonte. Ele aponta oportunidades em chips maduros e dispositivos de potência, cuja demanda cresce com a transição energética, além da experiência brasileira em design e backend.
Ronaldo Felix, da Saygo Group, defende que o país produza componentes que estejam em falta no mercado mundial, como chips maduros ou de potência, e não produtos excedentes. Para ele, uma fábrica de wafers poderia ajudar a formar um ecossistema para novos investidores; o risco de concorrência, segundo sua avaliação, aumentaria se o Brasil tentasse disputar chips abaixo de 10 nanômetros ou fechasse o mercado com exigências de conteúdo local.
Em Porto Alegre, a estatal Ceitec prepara uma linha de fabricação de dispositivos de potência de carbeto de silício (SiC), usados em veículos elétricos e em instalações solares e eólicas. O projeto recebeu 220 milhões de reais do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT), via Finep; a produção, antes prevista para 2026, deve começar no segundo semestre de 2027, inicialmente com lâminas importadas.
A disputa entre Estados Unidos e China e os riscos para o Brasil
O peso da disputa internacional aparece nos investimentos destinados à fabricação de semicondutores. O CHIPS Act dos Estados Unidos prevê 280 bilhões de dólares até o fim da década, dos quais 52,7 bilhões para subsídios à manufatura; a terceira fase do fundo estatal chinês Big Fund reuniu 344 bilhões de yuans, cerca de 47,5 bilhões de dólares.
As restrições americanas a produtos chineses e taiwaneses podem abrir espaço para o Brasil como alternativa de manufatura. O capital chinês procura acesso a mercados ocidentais, enquanto a estratégia americana de friend-shoring busca reduzir a dependência asiática; segundo Felix, data centers americanos não deveriam depender de insumos chineses.
Essa oportunidade convive com riscos regulatórios e comerciais. Felix alerta que controles americanos de exportação podem ter alcance extraterritorial e que ativos de capital chinês, como a Zilia, podem sofrer pressão ou ser afetados por tarifas contra triangulação; na avaliação dele, regras claras ajudariam a reduzir a ambiguidade para o país.
Empresas, pesquisa e demanda por chips no ecossistema brasileiro
Além da Zilia, a HT Micron, em São Leopoldo, encapsula chips com tecnologia de empilhamento, enquanto o Instituto Eldorado, em Campinas, projeta circuitos integrados para internet das coisas e para o setor automotivo. A Ceitec combina design e fabricação em nichos, e o projeto Pocket-Fab, da USP, prevê microfábricas com capacidade estimada de 60 milhões de chips anuais.
Em Porto Alegre, a trajetória da Ceitec também se relaciona à formação de pesquisadores. Criada em 2008, a empresa teve sua extinção decretada em 2020; o Tribunal de Contas da União suspendeu a dissolução e, em novembro de 2023, o governo federal reverteu a liquidação por decreto.
A inteligência artificial ampliou a demanda por memória: a Gartner projeta que esse mercado passe de 220 bilhões de dólares em 2025 para 1,07 trilhão em 2027. Grandes empresas de tecnologia elevaram suas encomendas de memória em agosto e setembro de 2025, chegando a volumes dez vezes maiores que os previstos, conforme os dados apresentados na reportagem.
Como data centers compram servidores prontos, a Zilia vende memória aos fabricantes desses equipamentos. O Brasil tinha cerca de 200 data centers, ante 350 na China e 4.000 nos Estados Unidos; para Nunes, a expansão desse mercado brasileiro depende também de iniciativas que estimulem a montagem local de servidores. A empresa planeja avançar nas exportações, no setor automotivo — inclusive no México e na Argentina —, em data centers e no encapsulamento para terceiros.


